Celular pode causar câncer? Os novos estudos sugerem que sim

A partir de julho, todas as lojas que venderem telefones celulares na cidade de Berkeley, na Califórnia (EUA), deverão entregar ao cliente – ou afixar no local de venda – um aviso alertando que o aparelho não deve, quando ligado, ser mantido no bolso da calça, da camisa ou no sutiã. Ou seja, junto ao corpo.

É o que determina uma Resolução aprovada no último dia 12 pelo Conselho da Cidade, por unanimidade.

Tudo isto por possíveis riscos à saúde dos usuários. Um risco, como destaca a Resolução, ainda maior para as crianças.

Esta é uma discussão que está envolvendo a nata dos cientistas do setor: cada vez mais as pesquisas recentes mostram que o celular ligado a uma rede wi-fi pode causar câncer no cérebro, câncer de mama, além de problemas com espermatozoides e várias outras doenças, inclusive em fetos.

O debate ocorre nos jornais, sites e TVs de países como EUA, França, Austrália, Canadá e Índia – para citar alguns dos mais efervescentes.

No Brasil, mal se fala no assunto.

O fato é que, desde 2011, a Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (IARC), órgão da Organização Mundial de Saúde, designou os campos de radiofrequência como possível cancerígeno na categoria 2B, ao lado de produtos como o chumbo e os gases da queima de gasolina.

Foi uma vitória dos pesquisadores independentes.

Até então, a maioria das pesquisas era financiada, imaginem, pelas próprias empresas que lucram com a telefonia móvel. E diziam, em sua maioria, que não havia riscos comprovados.

Nos últimos cinco anos o perfil mudou. E as pesquisas das universidades, não financiadas pelos interessados no lucro, começaram a apontar para um quadro que – se confirmado – ganhará o contorno de uma epidemia de doenças causadas pela inédita poluição tecnológica dos tempos atuais.

Um quadro que – se confirmado, repita-se – assusta os próprios cientistas.

Advertência se esconde nos manuais dos fabricantes

A Resolução de Berkeley tem uma origem. É que existem limites internacionais estabelecidos para a exposição às radiações dos aparelhos. Os fabricantes, porém, testam seus aparelhos com afastamento de 5 mm a 25 mm do medidores. Ou seja, quando você encosta o aparelho no ouvido ou o mantém junto ao corpo, você pode estar recebendo radiações acima do limite estabelecido. Seria necessário manter a distância mínima usada nos testes.
Este aviso consta no manual de alguns fabricantes. Em letras pequenas. No da Apple está escrito que “para obter informações sobre a energia de radiofrequência (RF) resultante de sinais de rádio e precauções que você pode tomar para minimizar a exposição, abra Ajustes > Geral > Sobre > Legal > Exposição à Radiofrequência”.

Ou seja, o manual da Apple em si não fala nada sobre o assunto. Nem lhe interessa, claro. Para a opinião geral usar um celular é tão seguro quanto tomar um copo d’água.

O manual do Blackberry Curve é mais claro. Diz que você não deve colar o aparelho ao corpo, deve manter distância de 15 mm e adverte: “Os efeitos a longo prazo de se exceder os padrões de exposição à radiofrequência podem oferecer risco de ferimentos graves”.

Mas a pergunta que fizeram as lideranças de Berkeley é:
Quem lê as letras pequenas dos manuais?

Países iniciam medidas para proteger crianças

Até o momento, o órgão de Saúde dos EUA, o FDA, ainda não estabeleceu oficialmente a ligação entre o uso de celular e câncer, mas mantém sua recomendação de que não se deve deixá-lo colado ou corpo e nem aos ouvidos, devendo-se utilizar o viva-voz, e restringir o uso por crianças.

Na França e em Israel é proibido o uso de wi-fi em pré-escolas e na França e na Bélgica as empresas de celulares não podem fazer anúncios para o público menor de 14 anos.

Motivos não faltam. A Dra. Martha Herbert, pesquisadora e neurocientista  na Harvard Medical School, encontrou uma conexão entre autismo e exposição à radiação de radiofrequência. Ela sugeriu que a radiação dos celulares penetra mais profundamente na cabeça das crianças e pode danificar as células.

Não é o único estudo neste sentido. Já se sabia que este tipo de radiação quase atravessa toda a extensão do cérebro de uma criança de 5 anos.

E ainda que pode atingir o feto na barriga da mãe, se esta for exposta à radiofrequência.

Em adultos há possíveis efeitos graves sendo descobertos. A cientista canadense Devra Davis, que trabalhou com a Academia Nacional de Ciências dos EUA, encontrou em suas pesquisas com ratos-machos adultos dados que mostram que a radiação do celular afeta o DNA dos espermatozoides e a fertilidade.

A radiofrequência do celular penetra mais profundamente no cérebro das crianças

A radiofrequência do celular penetra mais profundamente no cérebro das crianças

Nas torres de transmissão, mais possíveis riscos à saúde

As pesquisas se avolumam. Várias delas evidenciam uma associação entre o uso de celulares com wi-fi e o câncer nas glândulas salivares.

Outras sugerem fortemente que elas potencializam ou causam tumores cerebrais extremamente agressivos, como os chamados gliomas (Lennart Hardell, MD, PhD, professor do Departamento de Oncologia do Hospital Universitário, Orebro, Suécia).

Há o caso curioso de uma jovem que, sem outros fatores de risco, apareceu com câncer de mama multifocal exatamente no local em que ela costumava levar o celular diariamente, dentro do sutiã. A curiosidade do caso, revelado na edição de maio do boletim informativo do Health Trust Ambiental, é que as calcificações do câncer tinham exatamente o formato do celular que ela usava.

Não só os aparelhos de telefonia com wi-fi estão na berlinda. As torres que difundem o sinal também estão. Pesquisas têm demonstrando ligações entre doenças e a proximidade de pontos onde há concentração deste tipo de radiofrequência.

Por exemplo, em sua tese de doutorado em 2010, a pesquisadora Adilza Condessa Dode, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), selecionou 4.924 casos de pessoas que morreram em Belo Horizonte de vários tipos de câncer que têm sido relacionados com exposição à radiofrequência, como próstata, mama, pulmão, rins e fígado, no período de 1996 a 2006.  Descobriu que 81% das mortes era de pessoas que viviam a menos de 500 metros das antenas.

Já o médico e cientista americano David Carpenter – formado em Harvard e especialista em radiofrequência – elenca uma série de problemas de saúde que as pesquisas mostram ser derivadas deste tipo de radiação:
“São mudanças na função do cérebro, incluindo a perda de memória, a aprendizagem retardada e insuficiência de desempenho em crianças; dores de cabeça e doenças neurodegenerativas; desordens de supressão de melatonina e do sono, fadiga; desequilíbrios hormonais; alteração no sistema imunológico, tais como reações alérgicas e inflamatórias; problemas cardíacos e de pressão arterial; efeitos genotóxicos, como aborto e cânceres, tais como leucemia na infância e tumores cerebrais em adultos, e muito mais”.

O interessante é que, quando quase sobravam pesquisas a favor dos fabricantes de celulares, um grupo de pesquisadores chegou a concluir que o sinal de wi-fi poderia ajudar a… controlar e até curar o Alzheimer.
Hoje, as pesquisas mostram que ele pode causar o Alzheimer.

Uma briga que envolve ciência e muito dinheiro

Não se sabe até onde as pesquisas vão chegar e se todas serão confirmadas no futuro. Vale dizer que muito mais estudos são necessários para se confirmar tantas teses atuais.

Mas é preciso que, em caso de dúvida, pelo menos medidas preventivas de informações a adultos e proteção às crianças sejam tomadas.

Por isso, na última semana, mais de 200 cientistas do mundo inteiro assinaram uma petição para que a ONU estabeleça diretrizes de segurança sobre o uso de radiofrequência, em especial de proteção a crianças e grávidas.
No fundo, esta briga de hoje lembra muito outra que ocorreu décadas atrás no caso dos cigarros: de um lado cientistas independentes e do outro lado uma indústria poderosa.

A diferença é que hoje a informação é mais aberta que na época.

Mas a indústria em torno dos dispositivos móveis é muito mais poderosa.

Imagine, para as empresas de telefonia, crianças sem celulares e adultos utilizando-os com parcimônia, gastando menos em ligações?

Indo mais longe: comprovado, por exemplo, que o contato direto da fonte de radiofrequência do wi-fi com o corpo humano pode causar doenças, vai por terra todo o projeto da indústria de transformar o vestuário da população em instrumentos de interação.

Não vai dar para usar nem o relógio da Apple e nem os óculos do Google, se estiverem conectados.

É muito dinheiro envolvido.

Cientistas canadenses começam a fazer campanha sobre riscos do excesso de exposição ao celular

Cientistas canadenses começam a fazer campanha sobre riscos do excesso de exposição ao celular

 

fonte: http://diariodovale.com.br/colunas/celular-pode-causar-cancer-os-novos-estudos-sugerem-que-sim/